
O povo tem mania de dizer que quando tudo está perfeito, se está no paraíso. Adão não pensava assim, apesar de ter sido o primeiro cliente vip de que se tem notícia, já que tudo era exclusivamente seu, desde a beleza das flores, o gosto bom das frutas, a delicadeza da relva, o canto dos pássaros, o frescor dos rios, até a companhia dos animais.
Era, literalmente, a vida que, naquela época em que não se falava em TV de plasma e cartão de créditos sem limites, qualquer um pediria a Deus. Mas Adão quis mais. Tinha um último desejo: uma mulher. E Deus viu – ou pelo menos achou - que isso era bom. Seis meses depois, se o Ibope tivesse batido à porta de Adão com uma pesquisa de opinião sobre o mais recente lançamento do paraíso, o futuro da humanidade teria sido seriamente comprometido.
- Chegando tarde de novo, Adão? Só falta dizer que teve uma reunião com alguém!
- Eva, meu amor, isto é cisma sua. Como pode ter certeza que não cheguei na mesma hora de ontem se ainda nem inventaram o relógio?
- Chegou, tenho certeza que chegou, não preciso ficar esperando inventarem essas bugigangas tecnológicas para provar suas estripulias. Às vezes você esquece que eu já nasci bem grandinha... E esse perfume... Andou com outra, foi?
- Eva, não viaja! Eu nunca, nunca olhei para outra mulher! Nem que eu quisesse, você pode ter certeza disso!
- Não olhou porque não teve oportunidade, mas se tivesse, eu sei que você ia olhar, eu sei. Cachorro! Traidor! Deixa só inventarem a camisa que pego um colarinho marcado de batom, ah, se pego...
- Querida, vamos esquecer isso e jantar em paz, como se só existíssemos eu e você no mundo... A janta já está pronta?
- Janta? Que janta? Tá pensando o quê? Você pediu uma companheira ou uma escrava? Colhe uma fruta qualquer aí no jardim e se vira. E nem pense em maçã hoje que estou com uma dor de cabeça...
Era, literalmente, a vida que, naquela época em que não se falava em TV de plasma e cartão de créditos sem limites, qualquer um pediria a Deus. Mas Adão quis mais. Tinha um último desejo: uma mulher. E Deus viu – ou pelo menos achou - que isso era bom. Seis meses depois, se o Ibope tivesse batido à porta de Adão com uma pesquisa de opinião sobre o mais recente lançamento do paraíso, o futuro da humanidade teria sido seriamente comprometido.
- Chegando tarde de novo, Adão? Só falta dizer que teve uma reunião com alguém!
- Eva, meu amor, isto é cisma sua. Como pode ter certeza que não cheguei na mesma hora de ontem se ainda nem inventaram o relógio?
- Chegou, tenho certeza que chegou, não preciso ficar esperando inventarem essas bugigangas tecnológicas para provar suas estripulias. Às vezes você esquece que eu já nasci bem grandinha... E esse perfume... Andou com outra, foi?
- Eva, não viaja! Eu nunca, nunca olhei para outra mulher! Nem que eu quisesse, você pode ter certeza disso!
- Não olhou porque não teve oportunidade, mas se tivesse, eu sei que você ia olhar, eu sei. Cachorro! Traidor! Deixa só inventarem a camisa que pego um colarinho marcado de batom, ah, se pego...
- Querida, vamos esquecer isso e jantar em paz, como se só existíssemos eu e você no mundo... A janta já está pronta?
- Janta? Que janta? Tá pensando o quê? Você pediu uma companheira ou uma escrava? Colhe uma fruta qualquer aí no jardim e se vira. E nem pense em maçã hoje que estou com uma dor de cabeça...
Os anos passaram, o mundo mudou, mas a história foi apenas se aperfeiçoando, e tenho dúvidas se não é esse caos causado pela convivência diária que deveriam ter chamado de "pecado original". Sem esquecer que Adão ainda saiu em vantagem não tendo sogra. Se bem que a participação daquela serpente, até hoje, não ficou muito bem explicada...
Texto publicado originalmente na revista da Academia Criciumense de Letras - 2006
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Belo, belo, belo texto...
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