quinta-feira, 12 de março de 2009


Quem precisa de um novo emprego?

Primeiro dia no emprego novo é sempre inspirador. Você acorda mais cedo, toma um banho demorado, escolhe a melhor roupa. As unhas estão feitas, o cabelo bem penteado. O sapato limpinho. Nada daquelas meias com furinho no dedão: emprego novo é uma fase nova, exige uma meia nova. O trânsito está tenebroso, mas você, cheio de planos, pára no sinal vermelho e fica sonhando com o futuro brilhante que está começando.

Chega na empresa meio tímido, mas sorridente. A secretária tem uma vaga idéia de quem você é. Enquanto espera pelo chefe, lembra-se do antigo emprego. Ah, que alegria. Nunca mais você vai tomar aquele café horrível daquela secretária sem o mínimo dote culinário. Nunca mais você vai atender aquele cliente que não entendia seus projetos e ainda achava que sabia mais que você. Nunca mais você vai receber aqueles pedidos de trabalho urgentes, nem fazer hora-extra. Nunca mais vai ouvir aquele chefe falar bobagens. Sorri, satisfeito. Está na recepção do paraíso e dali em diante, tudo será diferente.

O novo chefe apresenta-o aos colegas. Todos sorriem, talvez por saberem melhor que você o tamanho do barulho em que se meteu. Alguns observam, tentando traçar, em segundos, seu perfil. Você conhece sua sala e acha tudo maravilhoso. Os colegas de sala fazem uma brincadeira para “quebrar o gelo”. Você quer começar a trabalhar imediatamente, mas não tem a menor idéia do que está acontecendo ao redor. Quer uma caneta, mas não sabe onde tem. Papel de rascunho, clips, nada. Não sabe onde estão salvos os arquivos. De vez em quando, um colega levanta a cabeça e sorri amarelo - não por maldade, mas não dá pra sorrir de outra cor para alguém que se conheceu há poucos minutos. O chefe volta com um trabalhinho simples, só pra você “sentir o clima” da empresa. Pronto, lá se foi a primeira manhã. O pessoal sai pro almoço e convida você para ir junto. Querem saber tudo de você: de onde veio, o que fazia, se gosta de mulher, se torce pro Tigre.

Depois do almoço você já está mais familiarizado. Os colegas falam sobre um filme que passou na televisão e perguntam se você viu. O clima é pra lá de agradável e você vai embora satisfeito. É o emprego que pediu a Deus.

Quinze dias depois você não cabe em si de tanto ânimo. Tudo é maravilhoso, melhor do que você imaginava. Já ligou para os colegas do antigo emprego falando do quanto a empresa nova é fantástica. O café é muito bom, tem leite em pó e bolo de chocolate todas as tardes. Os arquivos são organizados, os setores funcionam perfeitamente, as mesas são todas da mesma cor, bonitinhas, e os clientes são muito mais abertos a novos projetos. Você está cheio de ideias e feliz porque agora, sim, vai poder colocá-las em prática. Não existe emprego melhor que o seu. Você chega contente de manhã, brinca com a secretária, pergunta se a colega da mesa ao lado viu a novela das oito, oferece ajuda pro companheiro que está com mais trabalho, fica um pouco depois da hora por conta própria para adiantar o serviço.

O tempo de duração da fase “Eu amo meu emprego” varia muito. Se você é do tipo observador e crítico, dura uns dois meses. Dura até um ano, se você for muito otimista. O fato é que, mais cedo ou mais tarde, essa fase vai embora e dá espaço à fase “Talvez eu tenha me iludido”. Você já não faz tantos planos, acha que algumas das suas idéias não vão ser implantadas. Acha que o colega da mesa ao lado trabalha menos que você e menos do que deveria pelo salário que ganha. Fica enfurecido quando o cliente reprova o trabalho e diz que sempre soube que ele era um “tapado”. Acha que o chefe não faz nada, nunca está na empresa e quando está, só atrapalha. Conversa com um ou dois colegas que estão lá há mais tempo e abre o jogo. Ouve a opinião deles e começa a pensar que, talvez, o futuro ali não seja tão promissor quanto parecia.

Essa fase costuma durar bem pouco, já que vem colada com a fase do “Assim não dá!”. Tudo que acontece é motivo para o “assim não dá!”. Faltou tinta no estoque? Assim não dá! Nunca tem tinta no estoque! Seu chefe reprovou um projeto seu? Assim não dá! Esse homem não entende do negócio! O setor ao lado não repassou o trabalho para você no prazo? Assim não dá! Essa empresa é uma bagunça!

Você vai pra casa injuriado. Desabafa com a família, que não entende metade do que você fala porque não entende direito até hoje que raios exatamente você faz. Liga para um amigo com quem você trabalhava e abre o coração. Reclama que está estressado, conta alguns casos em que foi injustiçado e incompreendido, diz que não agüenta mais os disparates do chefe, lamenta não poder fazer tudo que havia sonhado para o bem da empresa. Toma meia garrafa de vinho e vai dormir. Chega na empresa feliz na manhã seguinte, como há dias não acontecia. Antes mesmo de cumprimentar os colegas, antes até de pegar o sagrado cafezinho, corre e agarra o jornal. Vai direto aos classificados e lê atentamente.

Bem-vindo. É a fase do “Eu preciso de um novo emprego”.


Crônica originalmente publicada na revista da Academia Criciumense de Letras em 2005, bem antes de encontrar meus atuais dois empregos.

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