sexta-feira, 24 de abril de 2009


Carentes em trânsito

Como não sou fã de dirigir depois de um dia inteiro rodando de aeroporto em aeroporto, fui pra Floripa de ônibus na última viagem. Ingenuamente achei que ia aproveitar o silêncio e a estrada para pensar na vida. Teria feito, se no banco na direção do meu não tivesse sentado um par de carentes em trânsito. Carentes em trânsito são aquelas criaturas que tem extrema necessidade de contar sua vida inteira, do nascimento aos planos futuros, pro companheiro de banco, cidadão que ele nunca viu e provavelmente nunca irá ver novamente. E como imãs, eles se atraem, sentam lado a lado, e falam 200km sem parar. Eu não me interesso pela vida de estranhos, minhas conversas em trânsito não duram mais de 10 minutos e ficam em coisas banais como o movimento na estrada, algum fato no caminho, a vista na descida do voo, só. Por que alguém sente necessidade de se vangloriar ou expor problemas para alguém que não conhece? Não sei, mas os ônibus estão cheios deles. E agora tenho um vasto banco de dados sobre três pessoas - sim, em Tubarão um dos carentes desceu e antes que eu pudesse respirar um novo carente, tão afoito quanto o primeiro, tomou o lugar - que não precisaria ter. Sei profissões, carreira, saúde, peripécias de filhos, impressões sobre viagens, planejamentos para os próximos cinco anos.
Na volta peguei um tipo ainda mais extravagante, o carente siachão. O cara tinha passado no concurso que a moça tinha ido prestar. Mas pra ele foi mole, a vida pós-concurso era maravilhosa e ele tinha todas as informações do mundo necessárias para obter tanto sucesso quanto ele. E ela jamais passaria se não seguisse todos os conselhos dele. Socorro. E cada vez mais sou apaixonada pelas pessoas que prezam pela discrição e pelo silêncio.




Ahhhh, o comentário do Milho me lembrou outra ótima que já vi mais de uma vez: - O senhor é médico? De quê? Eu tô com uma dor aqui que....
Socorro. Socorro.

2 Tire e atire aqui:

Milho disse...

Certa feita, indo para Tubarão, uma cidadão inventou de perguntar onde eu trabalhava, eu inventei de responder, me fodi. Quando eu disse que trabalhava no CEJA, ela disse que queria estudar aqui. Fiquei a viagem inteira tendo que esplicar como funciona e esclarecendo dúvidas da cidadã. Da próxima vez digo que sou pistoleiro, assassino de aluguel ou assaltante de bancos.

PutzGraça!!! disse...

Tem um jeito. O método tabajara. Se fazer de surda. Assim, na primeira investida, dá um toquezinho no próprio ouvido avisando que é surda e vira pro outro lado. Se o cara insistir, grite, berre mesmo, 120 sobibéis: "SOU SURDA!!!!!! FALE MAIS ALTO". Se o cara falar alto sempre berre que não está entendendo. Há o risco de o motora parar e botar vocÊs dois pra fora, mas na maioria das vezes funciona.

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